Enem: veja cinco redações nota mil no exame

Estudar as cinco competências avaliadas na redação e pesquisar assuntos possíveis que podem ser tema, estão entre as dicas para se preparar

Quem irá realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 tem exatos cem dias para estudar e se preparar para uma parte importante do exame: a redação, que consiste em cinco competências avaliadas (confira abaixo).

Neste ano, permanece uma mudança adotada no ano passado, após decisão judicial: o candidato que desrespeitar os direitos humanos no seu texto perderá 200 pontos, mas não poderá ter a nota zerada, como ocorria até então.

Porta de entrada no Ensino Superior, o Enem ocorrerá em 4 e 11 de novembro. No primeira domingo serão aplicadas as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Já na segunda data, serão realizadas as provas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias.

Confira, abaixo, a íntegra das redações nota mil, dicas para se preparar e o que não esquecer no dia da prova para alcançar um bom resultado.

 

1) Enem 2017 – Tema: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”

No ano passado, o tema da redação do Enem foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. A aluna do 2º semestre de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Julia Köchler, conta que estudava os temas propostos por sua professora e escrevia uma redação por semana, além de participar dos plantões individuais, para fazer as correções com a avaliação da sua professora. Julia, de 19 anos, descreve a sensação ao ver a nota máxima como um sentimento de felicidade inexplicável.

— A primeira emoção que eu senti foi surpresa, pois realmente não esperava obter essa nota, depois que me acalmei, e percebi que teria média para o meu curso, foi uma emoção muito grande, só conseguia chorar.

Confira a redação:

Em Esparta, na Grécia Antiga, as pessoas com deficiência física, como os surdos, eram sacrificados, pois o Estado não acreditava no potencial deles em um contexto de guerras. Mesmo que essa não seja mais uma realidade na sociedade contemporânea, os surdos ainda enfrentam diversos desafios para a sua formação educacional no Brasil, seja pela falta de recursos assistivos, seja pela dificuldade de inclusão social no âmbito escolar. 

Em primeiro plano, percebe-se que as escolas com alunos surdos incluídos não apresentam todos os recursos assistivos necessário para garantir o pleno desenvolvimento das habilidades funcionais desses estudantes. Exemplo disso são as escolas de Educação Básica, as quais não possuem docentes preparados para se comunicarem eficientemente com esses alunos, assim como não possuem materiais didáticos especializados para o ensino de Libras. Nessa perspectiva, fica evidente que o sistema educacional brasileiro não garante o total aperfeiçoamento intelectual dos deficientes auditivos. 

Além das dificuldades na aprendizagem, o caráter excludente das instituições de ensino também é um desafio para os surdos, devido a falta de integração social através da comunicação nas escolas. Segundo a célebre escritora Hellen Keller, “A tolerância é o resultado mais sublime da educação.” Essa máxima, entretanto, não está sendo devidamente efetivada, tendo em vista que a Libras não é amplamente difundida na educação brasileira, o que resulta na exclusão social dos surdos e compromete o desenvolvimento de suas habilidades sociais.

Frente aos desafios enfrentados pelos surdos no que tange a sua formação educacional, faz-se necessário, portanto, que o Governo Federal capacite os professores e adapte os mecanismos de ensino por meio de cursos profissionalizantes em Libras, bem como materiais didáticos completos e específicos para a formação intelectual desses alunos, com o objetivo de garantir aos deficientes auditivos o pleno desenvolvimento de suas habilidades. Ademais, o Estado junto às empresas de serviço público devem oferecer o ensino de Libras em todos os setores da sociedade, a fim de melhorar a comunicação dos surdos com a população e, consequentemente, implementar a inclusão social. Assim, será possível continuar a acelerar o processo de superação dos desafios vividos desde a Antiguidade.

2) Enem 2017 – Tema: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”

Também em 2017, Isabella Dal Pozzolo Motta, de 19 anos, não esperava tirar a nota máxima na redação. A estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) lia outras redações nota mil para ter uma base de como estruturar seu texto, mas, segundo ela, sempre mantendo o seu estilo e procurando corrigir erros apontados na correção dos textos feitos para testar.

— Eu fiquei incrédula. Demorei bastante tempo pra entender o que tinha acontecido e o que aquela nota significava. Mas, depois, eu fiquei extremamente feliz, esperava tirar uma nota boa, porque sempre escrevi bem e gostei muito de escrever, mas não esperava a nota máxima — conta sobre a sensação de gabaritar a redação.

Confira a redação: 

A educação é um direito inalienável de todos os cidadãos brasileiros. Entretanto, a acessibilidade àqueles que apresentam algum tipo de deficiência configura-se como um grande impasse na inclusão de todos os indivíduos. Com isso, surge a problemática dos desafios para a formação educacional de surdos no Brasil, que cresce intrinsecamente ligada à realidade dos país, seja pela ineficácia das políticas públicas vigentes, seja pela cultura acerca do deficiente auditivo no país.

É indubitável que a questão legislativa e a sua aplicação contribuem para o problema a respeito da educação inclusiva. Pessoas portadoras de qualquer deficiência, como a surdez, têm seu direito à educação garantido pela Constituição e pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência. Contudo, cenários como a falta de profissionais aptos a suprirem as necessidades dessa parte da população, assim como a ausência de um maior entendimento dos fatores que impedem de exercerem plenamente seu direito, impossibilitam sua eficiência. Tais legislações apresentam resultados insuficientes, já que não são capazes de possibilitar uma conjuntura na qual a educação inclusiva represente uma opção viável a todos os surdos.

Segundo pesquisas realizadas pelo Inep, sofreu uma diminuição o número de surdos matriculados em escolas da educação básica. De acordo com Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e pensar. Ao seguir essa linha de pensamento, observa-se que o impasse na promoção da inclusão do deficiente auditivo encaixa-se na teoria do sociólogo, uma vez que, se um indivíduo cresce em um círculo social que inferioriza o surdo e não o trata como merecedor de uma educação igualitária, tende a adotar um determinado comportamento também devido à vivência. Assim, o preconceito da sociedade à inclusão do surdo em todas as esferas da educação, transmitido de geração em geração, funciona como fator “sine qua non” dessa cultura, perpetuando o problema.

Visando valorizar a educação inclusiva e criar condições indispensáveis para o seu sucesso, é preciso que o Estado promova a capacitação e a formação de professores para surdos plenamente competentes. Por meio de cursos especializados, que auxiliem no entendimento total das necessidades dos deficientes auditivos que lhes proporcione o aprendizado das ferramentas necessárias para a comunicação, poder-se-á aumentar a inclusão e, lentamente, mudar a cultura rumo à valorização de idiossincrasias e de singularidades.

 

3) Enem 2016 – Tema: “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”

Em 2016, Gabriela Salzano Silva, hoje com 20 anos, gabaritou a redação com o tema “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. A estudante de Medicina, que mora em Porto Alegre, ingressou na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), em 2017, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Além de escrever uma redação por semana, no cursinho, com diferentes temas possíveis da época e pesquisar sobre os assuntos para criar argumentos sólidos, Gabriela conta que lia jornal e sempre que encontrava uma palavra diferente, buscava o significado e anotava em uma lista de termos não usuais, mas com significados comuns.

A estudante comenta que já esperava ter uma nota alta, pois tinha ficado satisfeita com o seu texto, mas o “mil” foi uma surpresa.

— Eu chorei muito, porque tinha tido um bom desempenho, mas não achava que seria possível devido aos altos pontos de corte, tinha ido mal em Linguagens e suas Tecnologias, o que até hoje acho uma ironia — lembra, aos risos. — E com o mil, minha média subia muito, logo que abri o site com o resultado eu tirei print com medo que tivessem colocado minha nota errado ali, saí do portal e entrei de novo para ver se era real mesmo — completa.

Confira a redação: 

Fé democrática

Célebre peça do teatro contemporâneo, “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, apresenta, como uma de suas temáticas principais, a intolerância religiosa advinda do clero católico brasileiro – o protagonista da peça é impedido de entrar na igreja pelo mero fato de ter, previamente, comparecido a um terreno de Umbanda, mesmo que tal religião seja um sincretismo derivado da fé católica. Nesse sentido, evidencia-se que a pauta criticada na peça ainda se faz presente na sociedade brasileira, caracterizada pela incapacidade de aceitar e de conviver com as diferenças.

A intolerância religiosa no Brasil constitui uma herança histórica: durante o Segundo Reinado, instaurou-se o Padroado, regime em que a Igreja Católica era subordinada ao Estado, e a fé cristã era, portanto, a religião oficial da nação. Não obstante a laicização do Estado tenha sido estabelecida na ocasião da proclamação da república, os resquícios da fusão entre religião e governo permaneceram como uma constante no imaginário do povo brasileiro, cujo credo, predominantemente cristão, encontra ratificação da sua noção de superioridade na medida em que se notifica a presença de símbolos católicos, como o crucifixo, dependurados em sedes de instituições governamentais. Dessa forma, a concretização do princípio de laicidade do Estado, base da reverente democracia, fundamenta-se no desvencilhamento governamental da entidade religiosa, a fim de cessar o recrudescimento do preconceito ligado à fé.

O desafio do combate à intolerância religiosa é intrínseco ao desenvolvimento do exercício de alteridade entre os brasileiros – isso é, a capacidade de se colocar no lugar do outro e respeitar sua crença, cultura ou condição. Outrossim, amiúde são relatados crimes de motivação religiosa; no entanto, a divulgação desses casos pela mídia é irrisória. Assim, o cidadão brasileiro tem pouco ou nenhum conhecimento da latente crise de tolerância religiosa existente no país, o que corrobora o não exercício da alteridade e a persistência da noção de de supremacia de algumas religiões, em detrimento de outras. Com base nisso, fica clara a imprescindibilidade da ação da escola no sentido de formar cidadãos capazes de conviver com a diferença, bem como da ação da mídia na divulgação dos crimes de intolerância.

Dentre os caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil, é dever fundamental do Estado, conforme dispõe o artigo 5º da Constituição Federal, assegurar a liberdade de credo a todos os cidadãos. Sob essa perspectiva, é necessária a efetivação da legislação já existente, por meio do cumprimento da pena pelos réus. Ademais, ainda sob égide do governo, deve haver a extinção de símbolos religiosos em órgãos governamentais, com a criação de leis que proíbam a inclinação religiosa dessas instituições. À educação, em conformidade com a lógica kantiana – “O ser humano é aquilo que a educação faz dele” -, cabe o ensino em sala de aula a respeito da dinâmica e do valor de cada religião na construção social brasileira, enfatizando aos jovens cidadãos a necessidade de harmonia entre as religiões. Por fim, cabe à mídia, exímia formadora de opinião, noticiar devidamente os ubíquos crimes de discriminação de credo, visando a mobilizar a população brasileira no sentido de, enfim, concretizar o princípio de laicidade do Estado.

4) Enem 2012 – Tema: “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI”

 

Larissa Reghelin Comazzetto, de 22 anos, mora em Santa Maria e atualmente cursa o 11° semestre de Medicina na UFSM. Em 2012, ela gabaritou a redação do Enem que tinha como tema “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI”. Durante a preparação para o exame, Larissa fez aulas particulares com uma professora de redação e escrevia de um a dois textos por semana. Além disso, estava sempre atenta às notícias da atualidade para estar preparada para os possíveis temas que pudessem vir.

— Eu sempre reservava um dia específico da minha semana em que eu destinava um determinado tempo para essa tarefa. E durante todo o ano, fui aperfeiçoando a minha escrita. A cada redação corrigida e discutida com a professora, eu sentava e tentava entender onde podia melhorar o texto. Muitas vezes, reescrevia todo o texto para conseguir enxergar ele corrigido e com as devidas mudanças — conta.

Faltando um mês para o Enem, a estudante intensificou o processo de estudos e passou a fazer de cinco a seis redações por semana. Depois de muita prática, quando foi conferir a nota no portal do Enem, Larissa comenta que ficou muito feliz e um pouco surpresa, pois não estava esperando a nota máxima.

— Liguei para o meu pai e contei, e logo mandei uma mensagem pra minha professora de redação. Tive a sensação de que tinha conseguido cumprir uma das minhas tarefas muito bem, fiquei orgulhosa de mim.

Confira a redação:

Imigração no Brasil: Resolver para poder crescer

Japoneses, italianos, portugueses, açorianos ou espanhóis. Durante o século XIX, muitos foram os povos que, em busca de trabalho e bem-estar social, desembarcaram no Brasil e enriqueceram nossa cultura. Atualmente, em pleno século XXI, a imigração para o Brasil mantém-se crescente, desafiando não somente nossa sociedade como também nossa economia.

Assim como os antigos imigrantes, os indivíduos que hoje se instalam em território brasileiro anseiam por melhores e mais dignas condições de vida. Muitos deles, devido à Crise Econômica originada em 2008, viram-se obrigados a se dirigir para outras nações, como o Brasil. Os espanhóis, por exemplo, por terem sido intensamente atingidos pela recessão, já somam uma quantidade expressiva na periferia de São Paulo. Diante disso, a fração da sociedade que reside em tal localidade vem enfrentando muitas dificuldades, em “dividir” seu espaço, que, inicialmente, não era adequado à sobrevivência, quem dirá após a chegada dos europeus. Segundo pesquisas realizadas pelo jornal “A Folha de São Paulo”, no primeiro semestre de 2012, brasileiros e espanhóis dos arredores de São Paulo vivem em constantes conflitos e a causa traduz-se, justamente, na irregularidade habitacional que ambos compartilham. 

Como se não bastasse, a economia brasileira também tem sofrido com a chegada dos migrantes. Existem, entre eles, tanto trabalhadores desqualificados como profissionais graduados. O problema reside na pouca oferta de emprego a eles destinada. Visto que não recebem oportunidades, passam a integrar setores informais da economia, sem direitos trabalhistas e com ausência de pagamento dos devidos impostos. O Estado, dessa forma, deixa de arrecadar capital e de aproveitar a mão-de-obra disponível, o que auxiliaria no andamento da economia nacional. 

Assim, com a finalidade de preparar a sociedade e a economia brasileiras para a chegada dos novos imigrantes, medidas devem ser tomadas. O Estado deve oferecer incentivos às empresas que empregarem os recém-chegados; essas, por sua vez, devem prepará-los para o mercado brasileiro, oferecendo treinamentos adequados e cursos de Língua Portuguesa e, ainda, garantir seus direitos trabalhistas. É imprescindível que o governo procure habitações, para os imigrantes e que nós, brasileiros, respeitemos os povos que, seja no passado ou no presente, somente têm a nos acrescentar.

5) Enem 2010 – Tema: “O trabalho na construção da dignidade humana”

Há oito anos, a médica cearense Renata Sampaio de Alcântara gabaritou a redação do Enem, com o tema “O trabalho na construção da dignidade humana”. Hoje com 31 anos, morando em Cascavel, no Paraná, ela lembra que para se preparar fez cursinho em Porto Alegre, onde morava na época, lia sobre assuntos da atualidade, escrevia redações toda semana e participava das correções individuais para ver onde estavam os erros. Renata recorda a surpresa ao ver sua nota que possibilitou a bolsa pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) e a oportunidade de cursar Medicina na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

— Fiquei paralisada olhando pra tela do computador, porque eu sabia que essa nota mil ia ser muito importante para ter a aprovação no vestibular.

Confira a redação:

Atualmente, em nosso país, há muitos problemas em relação às condições de trabalho a que a população menos instruída é submetida. Esses trabalhadores só permanecem nesses empregos, pois não conseguem melhores.

É lícito afirmar que, nos dias de hoje, está cada vez mais difícil achar um bom trabalho, já que, por existirem muitas pessoas procurando emprego, as ofertas de salário das empresas são baixas. Com isso, a população se submete a trabalhar muito para ganhar pouco. Essas pessoas, muitas vezes, têm uma família para sustentar, e nessas condições fica praticamente impossível viver com dignidade, pois não há recursos para comprar itens necessários para uma família inteira.

É importante salientar que as pessoas de classe social mais alta têm um bom emprego, uma ótima casa, mas esquecem que toda a população brasileira quer ter qualidade de vida também por ter o mesmo direito que todos. Os donos de empresas deveriam pagar melhores salários para que os trabalhadores conseguissem viver com dignidade.

O governo deve incentivar as empresas privadas a pagar melhores salários para seus empregados, pois, dessa forma, diminuiria o contraste na sociedade na qual poucos são ricos e muitos são pobres. Em troca, a empresa que pagasse melhores salários, seria isenta de alguns impostos pelo governo. Sendo assim, viveríamos em uma sociedade mais justa, valorizando os direitos humanos de todo cidadão.

 

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