‘Sisu contribui para a evasão de alunos’, diz professora

O Sisu (Sistema de Seleção Unificada do Ministério da Educação), pelo qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas em universidades públicas a candidatos participantes do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), completa dez anos em 2019. Ele foi concebido em 2009 e executado pela primeira vez em 2010 com a proposta de ser uma política pública de inclusão e democratização do acesso ao ensino superior. No entanto, ele recebe fortes críticas por não conseguir cumprir esse papel. O sistema foi criado para ser uma alternativa ao vestibular,  mas possui os mesmos erros e outros problemas de exclusão social, pois gera privilégios para estudantes de regiões mais ricas, ou que possuem acesso a um sistema educacional melhor.

A reportagem da FOLHA conversou sobre o assunto com a professora Elizabeth Balbachevsky, graduada em Ciências Sociais pela USP, com mestrado em Ciências Sociais pela PUC-SP, e que possui também doutorado e livre-docência na área de Ciência Política pela USP.

Qual o balanço a senhora faz dos dez anos de Sisu?

O Sisu tem contribuído para evasão de alunos de forma mais intensa do que ocorria anteriormente. Os resultados esperados eram de que o sistema poderia aumentar a mobilidade dos alunos e aumentar a chance dos jovens de ingressar no ensino superior, mas não realizou esse potencial. Existe um estudo de Simon Schwartzman sobre o perfil dos alunos que ingressam no ensino superior pelo Sisu que aponta uma mobilidade baixa, que não chega a 20% dos jovens que usam o sistema para buscar vagas.

Por qual motivo isso ocorre?

Os alunos tentam ficar no Estado onde moram, na universidade mais próxima pela qual conseguem pontuação. A mobilidade parte dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e dos estados do Sul do Brasil, que possuem ensino médio de melhor qualidade, para outros estados. No entanto, a mobilidade de outros estados para esses é muito pequena, porque o ensino médio de melhor qualidade cria vantagem competitiva, ou seja, há liberdade de escolha unidirecional. Isso provoca problemas de ocupação de vagas.

Os alunos abandonam mais os cursos?

O Sisu tem inadvertidamente contribuído para a evasão universitária de forma mais intensa do que antes. As universidade federais pioraram aquilo que a gente chama de eficiência, que é a quantidade de alunos pelo prazo que deviam formar. Eu acredito que esse problema de mobilidade ajuda a alimentar esse problema de evasão. O jovem vai para outra cidade e não se acostuma, a mãe não consegue bancar o filho fora de casa. As universidades brasileiras não foram feitas para acolher alunos de fora de Estado. Não possuem experiência nisso e não oferecem apoio psicológico e social. Também não dão assistência a quem enfrenta problemas, como por exemplo, de moradia. A estadia do estudante fora do local de origem fica proibitiva para a família, principalmente para as de renda mais baixa. O jovem não se acostuma com o lugar, enfrenta problemas de custeio das despesas, e há a dificuldade para se acostumar com outra região, devido aos hábitos diferentes.

E o impacto no ensino médio? Como a senhora avalia isso?

Já está na hora de fazer avaliação séria sobre o impacto negativo na vida dos alunos do ensino médio, que deveria formar valores e o raciocínio dos estudantes, mas o Sisu tem empobrecido isso. Esse exame brasileiro é o supra sumo da coisa velha e antiga. As famílias de renda mais baixa não possuem expectativa de entrar no ensino superior, porque as escolas preparam um currículo que basicamente prepara o aluno para fazer a prova do Enem. É uma verdadeira quimera na vida do estudante. Escolas públicas e privadas fazem testes ao longo dos três anos visando passar no exame. A reforma do ensino médio abriu para ter maior diversidade no currículo, mas o Sisu fez com que os estudos se tornassem treinamento para entrar na faculdade.

Isso ocorre somente no Brasil?

Isso é conhecido em todos os países que fazem esse tipo de exame. O êxito nessas provas não representa sucesso desse aluno na faculdade e na vida. Lá nos Estados Unidos existe o SAT (Scholastic Assessment Test), que leva em consideração o desempenho do aluno ao longo do ensino médio, além do resultado no exame. Isso faz com que o estudante tenha estímulo para estudar. Aqui no Brasil o aluno nunca tem isso. O aluno pensa que pode fazer o que quiser e no último ano faz um cursinho e passa no exame. Eu considero esse empenho durante todo o ensino médio mais potente para avaliar esse estudante do que passar em um exame realizado em um dia em que o estudante pode ter tido uma dor de cabeça.

Mas como funciona o SAT?

A diferença entre o Enem e o SAT é que este último possui um banco de questões. Para o estudante fazer a prova é só ir a algum lugar credenciado e faz o exame a qualquer momento. O sistema SAT gera prova individual para aquela pessoa e tudo é feito on-line. Basta o aluno sentar na frente do computador e fazer a prova. Isso é mais viável do que armar uma operação de guerra para todos os alunos fazerem a prova ao mesmo tempo. O Brasil poderia ter algo mais inteligente e flexível do que esta coisa horrorosa, do século 19. É uma coisa de Napoleão III, da França.

Antes o estudante poderia fazer sua matrícula pelo Sisu na segunda opção e ainda declarar interesse para entrar para a lista de espera na primeira opção, mas com as mudanças no Sisu 2019, não pode mais. Como a senhora vê as mudanças?

Foi a maneira que o governo encontrou de tentar cercar o comportamento estratégico dos alunos que sabem a pontuação que possuem e ficam olhando as ofertas dos locais onde têm chances de entrar. No modelo anterior o estudante fazia algumas apostas. O aluno não faz as escolhas de acordo com o interesse dele, do ponto de vista profissional, mas de acordo com o local onde haja mais facilidade de entrar. Essa estratégia de forçar os alunos a permanecer nas primeiras escolhas é um mecanismo para evitar fenômeno de volatilidade. Há uma hipótese de que esse tipo de escolha “oportunística” seja responsável por parte da evasão.

Quais são outras razões para a evasão?

Em alguns cursos a evasão é altíssima, mais de 50% dos alunos matriculados. O problema não é esse. Enquanto continuar com esse exame de “salvação nacional” vai ter essa situação. O ensino brasileiro estabelece essa lógica de escolher a profissão que exercerá pelo resto da vida muito cedo. Com 17 anos a pessoa não sabe o que quer da vida. Por isso em alguns lugares o currículo migrou para dois ou três anos de formação genérica e só depois há a formação específica. Isso é aplicado na Universidade Federal do Sul da Bahia e na Universidade Federal do ABC. O Sisu tem a lógica de leilão. As pessoas que vão a um leilão dificilmente saem sem comprar alguma coisa, nem que seja com uma bobagem que não sabe para que serve. O aluno entra com essa mentalidade, porque é o que o sistema pede para ele fazer. Mas ele joga com o futuro dele e, quando vê que entrou no curso errado, desiste.

No ano passado o governo anterior chegou a anunciar a criação do Sisu Transferência, que permitiria a transferência de unidades privadas para universidades públicas, com expectativa de que diminuíssem as vagas ociosas. A previsão era de que ele entrasse em vigor ainda este ano. Como a senhora vê isso?

Não funciona. O modelo e a dinâmica da universidade tornam difícil contabilizar vagas ociosas. O estudante normalmente não desiste, tranca a matrícula por dois a três anos e aquela vaga fica bloqueada. Alguns alunos realmente demoram mais tempo para se formar por estarem trabalhando e terem responsabilidades familiares. É fácil contar o total de alunos que entraram e quantos estão se formando, mas não significa que a vaga ficou ociosa em algum momento. Nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) deixa completamente sob a decisão da universidade sobre quais as disciplinas que irá reconhecer da outra instituição. Pode ter três anos na universidade privada e na pública descobre que tem que voltar para o primeiro ano. É um horror.

Fonte: Folha de Londrina