Górgias

Górgias (480/378 a.C.) nasceu em na colônia grega de Leotinos, na Sicília e teria vivido mais de cem anos e morrido na cidade de Larissa. Visitou Atenas como embaixador em 427 e impressionou os seus habitantes pela sua capacidade retórica. Foi grande viajante, tendo visitado todas as outras cidades importantes da Grécia. Sua posição na história da Filosofia situa-se após os pré-socráticos, sendo considerado um dos mais importantes representantes dos sofistas juntamente com Protágoras.

Foi chamado de “o pai da sofística” por suas contribuições à retórica. Originalmente, a retórica era voltada para a persuasão, porém, acabou sendo associada à arte de falar com competência e efetividade. Para Górgias, não importa quem está “com a razão” ou “ao lado da verdade”, mas sim quem domina a retórica. Este sim terá razão, pois a “verdade” não existe. Os sofistas eram famosos pela habilidade retórica, e foi justamente essa a oposição de Sócrates a eles.

É atribuído a Górgias a introdução da retórica em Atenas, fato que contribuiu para as críticas de Sócrates e também para boa parte da filosofia de Platão. A cidade onde Górgias nasceu, Leotinos, é também chamada de terra natal da retórica grega.

Escreveu várias obras, sendo as mais importantes:

Sobre a natureza ou o não-ser,

A arte retórica, Defesa de Palamedes,

Elogio de Helena e

Elogio da cidade de Eléia

Górgias excedeu o relativismo de Protágoras em direção ao niilismo. Este niilismo foi elaborado na forma de uma crítica contundente às doutrinas da escola eleática, mais especificamente à Parmênides. Talvez essa tenha sido sua grande contribuição à Filosofia.

Parmênides formulou uma teoria na qual o ser é imutável e única realidade, daí a famosa frase deste filósofo: “O ser é, o não ser não é”.  No escrito que se intitulava, “Sobre o não-ser”, Górgias procurou desmontar as principais teses do eleatismo de Parmênides e seus seguidores, principalmente combatendo a doutrina de que há um vínculo necessário entre o ser e o pensar.

Aqui estamos falando do ser como essência imutável das coisas; aquela que se pode atingir através do pensamento e da razão. Para Górgias não há o ser, muito menos uma essência que se perceba através do pensamento, portanto, não existiria um vínculo entre ser e pensar, muito menos uma verdade imutável. Segundo Górgias:

não existe o ser;

mesmo que existisse não seria compreensível;

mesmo que fosse compreensível não seria comunicável aos outros.

Com isso, ele tenta excluir a possibilidade de uma verdade absoluta, objetiva e definitiva com base em uma suposta correspondência entre o ser e o pensar, pois não há verdade racional sobre o inexistente, sobre o que é incognoscível e sobre o que é inexprimível.

As três teses fundamentais de Górgias

O ser não existe: Esta tese é defendida mediante a utilização da técnica argumentativa empregada pelos representantes do eletatismo. Parmênides declarou que o devir e a multiplicidade são contraditórios e, portanto, ilusórios, concluindo que a realidade é uma ilusão e apenas o ser é verdadeiro e existe. Górgias, por sua vez, procurou demonstrar que qualquer posição a respeito do ser também é contraditória e, portanto, ilusória.

O ser é incognoscível: Aqui Górgias combate o suposto laço necessário entre o ser e o pensamento. Parmênides afirmou que a referência do pensar é o ser e que este é sempre inteligível. Górgias procurou mostrar que estas afirmações não se sustentam, pois pode haver pensamento sobre o que não existe, como uma baleia voadora. Se a referência do pensamento é sempre o ser, todos os seus conteúdos deveriam corresponder a coisas existentes, o que não se verifica. Portanto, o pensamento não é garantia de verdade ou realidade.

O ser é inexprimível: Parmênides, além de ter afirmado a identidade entre o ser e o pensar, afirmou também a identidade dos dois com o dizer. Definir significa dizer o que é, sendo impossível definir o que não é. Górgias não aceita que a palavra tenha por si só o poder de significar ou mostrar o que é a realidade. Há um divórcio entre a palavra e o ser, pois aquele que diz algo não é capaz de transmitir uma experiência ou a realidade de algo que não foi experimentado pelo seu interlocutor. Por exemplo, a mera repetição da palavra “vermelho” para um cego de nascença, jamais terá o poder de transmitir o que é realmente o vermelho. Por outro lado, as coisas não são as próprias palavras e mesmo entre indivíduos saudáveis não se pode ter a certeza de que a palavra “vermelho” é representada da mesma maneira.